Conforme envelheço começo a pensar mais no significado das coisas.Uma coisa em que tenho pensado é no que significa a música.Para que serve?Vejo tanta gente com phones nos ouvidos, alienados ou a tentar alienar-se do mundo à volta.Vejo os recordes a serem batidos nas assistências dos concertos e festivais de música.O que leva tantas pessoas a procurarem a música?É entretenimento?É a sensação de pertencer a algo?Suponho que cada um tenha a sua razão.Os jovens vejo que são seguidores.Estão a procurar referências às quais se possam identificar. Alguém que expresse por eles o que eles próprios sentem mas não conseguem partilhar nem comunicar muito bem.Mas isso não é música.É outra coisa.Ver um bacano vestido de maneira incomum aos saltos em cima de um palco, a gesticular de forma abstracta ora mais, ora menos violentamente não é música.Os cartazes a anunciar os concertos e as fotos de bandas parecem tão ridiculas. Porque quererá alguém ligar-se a isso?Da mesma maneira alguém que toque guitarra e cante como o gajo dos Muse, que toque e cante como o Clementine ou o Howard ou que se expresse como o Øye…porque razão se querem ligar a essas pessoas?Porque querem estar ao pé deles?Porquê a idolatração?Porque é fixe? Porque eles fazem o que poucos fazem?São raros?Pelo que nos fazem sentir? E o que nos fazem sentir?É porque nos ajudam a identificar outras pessoas com gostos comuns e que possamos comunicar com elas?Fazer novos amigos?São facilitadores de relações, é isso?Os mais velhos também procuram isso?Estou a tentar desconstruir todos estes conceitos à volta da música.Não sei responder porque me liguei à música.Comecei muito novo a cantar, depois parei e só muito depois daquelas secas das aulas de educação musical do ciclo, que não deixavam pegar em nenhum instrumento é que voltei à música. Fiquei fascinado quando o meu irmão mais velho comprou uma guitarra acústica de cordas de Nylon. Tinha que aprender a tocar! Que melhor altura para aprender ao som das Nirvanadas e de Pearl Jamadas?Mesmo sem poder reproduzir a distorção, aquilo na minha cabeça soava tal e qual. Coitados dos vizinhos. Um dia um deles virou-se para mim e disse-me:”- Ó Hugo…o ser humano adapta-se a tudo”. Devia ter estado a ouvir os meus devaneios musicais e autoflagelos grunge. Seguiu-se a compra de um amp Ibanez de 20 watts e uma eléctrica Maison preta. Nunca gostei muito de música que não fosse séria. Tinha de passar uma mensagem que tivesse algum significado social. A música tinha um propósito concreto. Mudar a vida das pessoas para melhor. Ou mudar por mudar. Também servia. Tinha de ser um veículo de mudança social. Como foi no 25 de Abril com os cantautores Portugueses. Não sou filho da revolução mas foi-me passada a mensagem que a música foi muito importante para espalhar o sentimento de revolta, ainda que subliminarmente. Cresci com essa ideia. A música tinha esse poder. Hoje não vejo isso. A música é em grande parte acessória e um produto para vender. Mesmo o Glover (ou especialmente o Glover?). Quem sobe ao palco são puros entertainers. A mudança social é uma forma de entretenimento para os pseudo-intelectuais. Está tudo embrulhado em papel de presente e é-nos vendido a preços bem caros. E nós compramos, todos contentes. Não vejo grande escapatória a isso. O artista tem de comer e pagar contas. Ainda assim faço música, ainda vou a concertos, ainda continuo a procurar significado nisto da música.

Escrevo sobre música, veganismo, inovação na sociedade e afins // harmrecords.com // Go Vegan🌱